RELATO DE PARTO NORMAL

Tudo começou no dia 06/04/2017 (quinta-feira). Consulta de rotina com o obstetra. Dr. X (vamos chamá-lo assim) me perguntou como eu estava me sentindo, se havia tido algum vazamento de líquido ou sangue, se eu estava sentindo dor etc.. Nada, foi a minha resposta. Minha barriga se contraía, mas não havia dor e nem regularidade. Ele me examinou. Fez um toque, o segundo de muitos que ainda estariam por vir. 2cm de dilatação. Apenas. Colo do útero nada macio, segundo ele. Requisitou um ultrassom com Doppler, para saber mais precisamente como estava o volume do líquido amniótico e o desenvolvimento da bebê. Dr. X me passou o número do seu telefone (coisa que ele não tinha feito durante os quase 9 meses em que fui acompanhada por ele) e me pediu para que eu fizesse o exame com urgência e mandasse os resultados via WhatsApp o quanto antes. Ok, pensei eu.
Daí, Dr. X me fala a coisa que mais me abalaria durante os próximos dias: Se você não entrar em trabalho de parto até terça-feira (11/04), vamos ter que fazer a cesariana na quarta-feira (12/04). Meu mundo estava prestes a desmoronar ali mesmo, naquele consultório gelado, na frente de um médico mais frio ainda. Meu coração deu um baque. Como assim? Cesariana? NÃO! Não foi isso que você me disse na nossa primeira consulta! Só pensei. Não falei. Devia ter falado. Só consegui dizer: Mas, o senhor não pode fazer uma indução? Minha voz estava embargada. Eu ia chorar. Sabia disso. Engoli o choro. A resposta dele foi a gota d’água para mim: Não tenho 48 horas disponíveis para ficar te observando. Como assim você não tem TEMPO para me observar? Novamente, só pensei, não falei. Disse: Ok! Tá certo. E ele: Tá agendado já.
Saí daquela sala com vontade de morrer. Entrei no carro da minha mãe aos prantos. Meu marido não podia estar comigo na consulta, mas foi me encontrar logo em seguida. Chorei tanto. Foi terrível. Me senti violentada. Minha mãe e meu marido tentaram me consolar, disseram que íamos procurar outro hospital. Liguei para o meu primo que é obstetra e contei toda a situação. Ele me confortou dizendo que eu poderia ir para o hospital em que ele trabalhava e ele mesmo faria o meu parto. Ufa! Pelo menos, eu teria uma opção.
Fiz o ultrassom no outro dia de manhã e, depois, fomos visitar dois hospitais (Maternidade Santa Lúcia e o Hospital da Mulher do Recife). O primeiro não deixava o pai dormir na enfermaria comigo, apenas uma acompanhante do sexo feminino. Como assim o PAI não podia ficar comigo? Tá maluco! O segundo, no entanto, era um sonho transformado em realidade, como tinha dito a minha concunhada. Que lugar lindo, que lugar mágico. Todos eram simpáticos e prestativos lá. Foi amor à primeira vista. Os pacientes me diziam que ali era maravilhoso! Nossa! Que alívio. O hospital público estava sendo melhor do que os dois particulares em que tínhamos ido. Seria possível? Aqui no Brasil? Seria não, era possível. Foi possível. Ainda é. Marquei uma visita para segunda-feira.
Quando chegou o dia, visitei as instalações do hospital, recebi orientações. Foi ótimo. Me senti em casa. Era ali. Tinha que ser ali. E foi. Fui encaminhada para a triagem, para receber uma avaliação do médico de lá. As enfermeiras foram muito simpáticas e atenciosas. Me perguntaram o motivo de eu escolher aquele hospital e eu contei a minha história. Elas ficaram horrorizadas com o tratamento que eu tinha recebido e me garantiram que ali eu ia ser tratada como devia. Mal sabia eu que duas daquelas enfermeiras seriam minhas fadas madrinhas. Milca e Nayara. Nunca vou esquecer o nome delas. Aguardei na recepção com minha sogra e meu marido e logo fui chamada para ser avaliada. A médica conversou comigo e fez um toque. 3cm. Progresso! Isso era excelente! Eu ia conseguir! Voltei para casa com a instrução de voltar para lá caso: 1. Minha bolsa rompesse. 2. As contrações ficassem de 5 em 5 minutos. 3. Se eu estivesse com 6cm de dilatação. 4. Se eu completasse 41 semanas e 5 dias. Eu já estava com 41 semanas e 2 dias! Estava mais perto do que longe. Minha mãe montou acampamento na minha casa no dia seguinte e ficamos observando.
Na quarta-feira (12/04), não voltei para Dr. X me abrir e puxar minha filha para fora de mim. Fui dormir com doces contrações se regularizando.
Quinta-feira (13/04): Às 10 horas da manhã, estávamos nos arrumando para ir para o hospital. Malas e documentos na mão, ansiedade no coração. Contrações regulares, sem dor, mas regulares. Chegamos lá e fui para a triagem novamente. E adivinha quem me atendeu? Minhas fadas madrinhas. Estavam felizes em me ver de novo. Eu também. A médica fez um toque. Meu colo do útero ainda estava colado. Ela me disse que teria que descolar um pouco para o trabalho de parto começar de fato e para desencadear as dores das contrações. Foi o pior toque da minha vida. A médica me escavou e eu gritei e eu chorei e eu pedi para parar. Ela não podia parar. Ela não fez por mal. Quando terminou, comecei a sentir, quase que instantaneamente, um leve cólica. Fui para a ala de observação e fiquei esperando para, dali a algumas horas, a médica ver de novo como estava o andamento da dilatação.
Fiquei fazendo agachamentos e caminhadas pela sala. Queria muito que desse certo. Quando a hora ia chegando, me amedrontei. Não queria um outro toque daqueles. Foi aí que surgiram Milca e Nayara para auscultar o coração da minha pequena. Eu confidenciei que não tinha gostado do último toque da médica e Milca, delicadamente, fez um novo. 4cm! Isso! Elas saíram e me deixaram lá, esperando para ver a médica dali a algum tempo. Continuei com os exercícios, comi, conversei com minha mãe, meu marido e minha sogra. Tranquilizei algumas mamães que estavam com dores. Vi mulheres entrarem naquela sala e saírem dela. Foram encaminhadas lá para cima, o lugar onde as coisas aconteciam de fato. Nesse entra e sai, minha ansiedade ia crescendo porque EU não saía de lá.
No final da tarde, minhas fadas madrinhas vieram e me pouparam de voltar para a médica. Como eu agradeci! Eu estava calma. Estava tentando. Mediram minhas contrações e saíram. E daqui a pouco, de noite, me trouxeram uma bata e me mandaram lá para cima. A terra onde as coisas aconteciam. Finalmente. Eu, antes de subir, pedi para Milca e Nayara ficarem para o meu parto, se possível. Eu confiava nelas. Subi e me instalei num quarto de observação, junto com outra mulher. A enfermeira me informou que só me dariam a oxitocina no outro dia de manhã, que eu precisava descansar. Minha mãe foi para casa dormir e meu marido ficou ali comigo. Ansiedade nos definia. Passamos a madrugada ouvindo gritos de desespero e dor. Eu mandava boas energias para aquelas mulheres, desejava sorte e sorria quando ouvia o tão esperado chorinho. Mais um. Mais outro. Mais um monte.
Sexta-feira (14/04), 9 horas da manhã. Oxitocina. Agora vai! E foi. Lento. Demorado. Horas e mais horas. A dor ia aumentando ao longo do dia. Até que eu não queria mais comer, não queria mais conversar (não conseguia ser simpática nem com quem mais me amava), não queria mais nada. Só queria que a dor passasse. Ninguém tinha me dito que o trabalho de parto dava tanto calor. Eu derreti durante o dia todo.
Durante um tempo, tentei resistir ao desejo de pedir uma cesariana. Até que não dava mais. Pedi uma cesariana. Pedi anestesia. Já estávamos fora da possibilidade de ter isso. Perguntava quando ela ia nascer, quanto tempo faltava para aquilo terminar. Eu queria uma previsão, uma esperança na qual pudesse me agarrar. E não tinha previsão. Tempo, tempo, tempo. Eu não andava mais. Não fazia mais exercícios. Estava cansada. Queria morrer. Preferia ser um mendigo, toda vez que a dor vinha. Minha família estava apreensiva em casa (não quis festa no hospital). Por que essa menina escolheu parir assim? Era a pergunta de um milhão de reais.
Nesse momento, eu me perguntava a mesma coisa. Não me deixaram desistir. Me encorajaram. Meu marido, minha mãe e as enfermeiras. Até o momento em que eu fiz xixi na cama. Não. A bolsa não tinha rompido. Foi xixi mesmo. De propósito, fiz xixi na cama. Minha dignidade tinha acabado há tempos. O que era aquele xixi na cama comparado ao cocô que eu fiz na frente da enfermeira pela manhã? NADA! E foi esse simples xixi que mudou tudo.
Minha mãe e meu marido me levaram para tomar banho. Eu estava um caco. Tomei banho sentada em uma bola de pilates, abraçada ao meu marido, sendo lavada pela minha mãe. Voltei para o quarto enrolada em uma bata molhada. A enfermeira me perguntou se aquilo tinha sido a minha bolsa e eu tinha dito que não. Então, ela rompeu. Daí para a frente, o negócio descarrilhou. A enfermeira me pediu para eu me agachar. Minhas pernas tremiam de dor. Só consegui fazer o que ela me pediu quando meu marido fez comigo. E fiz força e o sangue desceu. Uma bela poça de sangue. Fui instruída a ficar de quatro apoios (joelhos no colchão e abraçada à cabeceira reclinável da cama) e fazer força para baixo quando a dor viesse. Obedeci. Repeti o processo algumas vezes, até que Milca, uma das minhas fadas madrinhas, chegou do meu lado e me acalmou. Aquela voz suave me dizia que estava dando tudo certo, que minha bebê estava quase nascendo.
Meu marido e minha mãe estavam ao meu lado e me davam forças a cada contração. Eu estava exausta. Disse que ia parar um pouco e o coro de vozes atrás de mim me disse que não, que eu tinha que continuar, que Valentina estava saindo. Eu não tinha me dado conta da chegada da equipe de enfermeiras e técnicas. Elas tinham apagado as luzes do quarto e tinham deixado apenas um foco de luz voltado para o meu bumbum, tinham colocado uma música suave e me vestido com um top. Quando eu senti a cabeça no meu canal vaginal, pedi para colocarem a música que ouvíamos quando eu estava grávida, Stairway to Heaven, de Led Zeppelin. Era a música de Valentina. Era a música que fazia ela mexer na barriga. E nesse momento, a enfermeira chefe perguntou se meu marido gostaria de pegar a bebê quando saísse. Ele, nervoso, quis e se posicionou atrás de mim, com os braços estendidos, prontos para aparar nossa pequena. Até então, eu não tinha gritado, mas quando senti que ela estava nascendo, gritei o nome dela, pedi para ela vir. E, às 21h12m, em meio a sangue, cocô, suor e cheiro de óleo essencial de lavanda (que minha mãe/doula usou para me fazer uma massagem relaxante), Valentina veio. Veio berrando, veio para a gente. 3,700kg e 50cm de muito amor.
Quando ela saiu, não existia mais dor, só o maior amor do mundo. Quando colocaram aquele pacotinho sujo de sangue, ainda ligado a mim pelo cordão umbilical, nos meus braços, meu mundo parecia completo. Um vazio que eu não sabia que existia foi preenchido. Aliás, eu me transbordei através dela. Seguindo um ritual do HMR, meu marido fez um juramento sobre cuidar de nós e cortou, nervosamente, o elo físico que me unia a Valentina. Uma das melhores sensações do mundo foi sentir aquela boquinha banguela sugando o meu peito ainda na sala de parto. Naquele momento, nada mais existia. Apenas nós três.
Depois, foram medir, pesar e examinar Valentina. E eu, que pensei que nunca mais ia sentir dor na vida, ainda esperei a placenta sair, me limparem e me costurarem. Não fizeram episiotomia (corte do períneo) em mim, mas fiquei um pouco lacerada. A fome que eu não tinha sentido durante o dia todo atacou com tudo. Fome, frio e exaustão. Mas, mais do que isso, a expectativa de uma vida toda pela frente com a minha nova família.